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Lítio brasileiro ganha destaque com descobertas no Vale do Jequitinhonha

Jazidas de lítio descobertas em Minas Gerais podem posicionar o Brasil como fornecedor importante para indústria de baterias de veículos elétricos, com investimentos previstos de R$ 3 bilhões.

Lítio brasileiro ganha destaque com descobertas no Vale do Jequitinhonha

O Vale do Jequitinhonha, tradicionalmente conhecido por suas jazidas de pedras preciosas, está se transformando em promissora fronteira de exploração de lítio no Brasil. Descobertas recentes em municípios como Araçuaí, Itinga e Coronel Murta revelaram potencial significativo de pegmatitos litiníferos, rochas que concentram esse mineral essencial para baterias de veículos elétricos.

A Sigma Lithium, empresa com capital canadense e brasileiro, lidera os investimentos na região. A companhia opera o Projeto Grota do Cirilo, que entrou em fase de produção comercial em janeiro de 2025 com capacidade inicial de 270 mil toneladas/ano de concentrado de espodumênio (6% Li₂O). A meta é duplicar a capacidade até 2027, posicionando a operação entre as 10 maiores produtoras mundiais de lítio.

Investimentos totais da Sigma Lithium no projeto somam R$ 2,1 bilhões, incluindo planta de beneficiamento, infraestrutura logística e sistemas de gestão ambiental. A empresa emprega 850 pessoas diretamente e gera 1.200 empregos indiretos na região.

Outras empresas também prospectam lítio em Minas Gerais:

- Latin Resources: projeto Salinas, com reservas estimadas de 13,5 milhões de toneladas de minério @1,3% Li₂O. Investimento previsto de R$ 800 milhões.

- Atlas Lithium: múltiplos alvos exploratórios no nordeste mineiro, já identificou 7 ocorrências com potencial econômico.

- Brasil Lítio: subsidiária da CBL (Companhia Brasileira de Lítio), explorando pegmatitos na região de Araçuaí.

POTENCIAL GEOLÓGICO

Segundo CPRM (Serviço Geológico do Brasil), a Província Pegmatítica Oriental do Brasil, que se estende por Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Norte, possui centenas de ocorrências de lítio mapeadas. As reservas conhecidas ultrapassam 2 milhões de toneladas de lítio contido, mas a exploração sistemática é recente.

Vantagens competitivas do lítio brasileiro:

- Alto teor (1,2-1,8% Li₂O, acima da média mundial de 0,9%)

- Baixos contaminantes (ferro, fósforo)

- Lavra a céu aberto com baixo custo

- Proximidade de infraestrutura (rodovias, energia)

MERCADO GLOBAL

A demanda global por lítio cresce 30-35% ao ano, impulsionada por veículos elétricos. Em 2024, a produção mundial foi de 180 mil toneladas de lítio contido, com Austrália (55%), Chile (23%) e China (14%) dominando o mercado.

O preço do carbonato de lítio, após pico de US$ 85.000/t em 2022, estabilizou em US$ 12.000-15.000/t em 2025. Analistas projetam recuperação gradual para US$ 20.000-25.000/t até 2027 conforme demanda de veículos elétricos acelera.

DESAFIOS E OPORTUNIDADES

1. PROCESSAMENTO LOCAL - Atualmente, 90% do concentrado brasileiro é exportado para China para refino. Há oportunidades de agregar valor produzindo hidróxido e carbonato de lítio localmente.

O BNDES lançou linha de crédito de R$ 5 bilhões para projetos de industrialização de lítio, com juros subsidiados (TJLP + 1,5% a.a.). Três grupos industriais já manifestaram interesse em instalar plantas de refino no Brasil.

2. MELHORIA LOGÍSTICA - Transporte do concentrado de lítio do interior de Minas Gerais até portos custa US$ 80-100 por tonelada. Projetos de melhoria da BR-367 e construção de terminal especializado no Porto de Ilhéus podem reduzir custos em 30%.

3. LICENCIAMENTO AMBIENTAL - Vale do Jequitinhonha está em região de Mata Atlântica e Cerrado, com forte presença de comunidades tradicionais. Empresas precisam demonstrar compromisso socioambiental robusto.

A Sigma Lithium foi a primeira operação de lítio no Brasil a obter certificação IRMA (Initiative for Responsible Mining Assurance), reconhecimento internacional de práticas sustentáveis.

4. CAPACITAÇÃO LOCAL - Escassez de mão de obra qualificada levou empresas a estabelecerem parcerias com SENAI e IFNMG (Instituto Federal do Norte de Minas Gerais) para cursos de formação de operadores, técnicos e engenheiros de minas.

IMPACTO REGIONAL

O Vale do Jequitinhonha é uma das regiões mais pobres de Minas Gerais, com IDH médio de 0,642. A mineração de lítio está trazendo transformações:

- Crescimento de 25% na arrecadação municipal de ICMS e CFEM

- Criação de 3.000 empregos diretos até 2025

- Investimentos em educação e saúde por exigência de TACs

- Surgimento de empresas fornecedoras de serviços especializados

- Melhoria de infraestrutura (estradas, energia, telecomunicações)

Porém, há preocupações:

- Inflação de custos locais (aluguel, alimentação)

- Pressão sobre serviços públicos (saúde, educação)

- Conflitos por uso da água em região semiárida

- Necessidade de planejamento urbano para evitar crescimento desordenado

PERSPECTIVAS

Se as jazidas em desenvolvimento cumprirem expectativas, o Brasil pode produzir 100-150 mil toneladas/ano de concentrado de lítio até 2030, representando 8-10% da oferta mundial. Isso geraria US$ 2-3 bilhões em exportações anuais.

A transição energética global torna o lítio mineral estratégico, e o Brasil tem oportunidade de se posicionar como fornecedor confiável e sustentável. O sucesso dependerá de equilibrar desenvolvimento econômico com proteção ambiental e benefícios para comunidades locais.