Mineradoras investem em economia circular e reaproveitamento de rejeitos
Setor mineral desenvolve tecnologias para reprocessar bilhões de toneladas de rejeitos estocados, transformando passivos ambientais em recursos econômicos e reduzindo impacto de novas extrações.

A mineração brasileira está abraçando o conceito de economia circular, desenvolvendo tecnologias e processos para reaproveitar os bilhões de toneladas de rejeitos acumulados ao longo de décadas. Essa transformação converte passivos ambientais em ativos econômicos, reduz necessidade de novas extrações e minimiza impactos ambientais.
DIMENSÃO DO DESAFIO
Estima-se que existam 8,5 bilhões de toneladas de rejeitos de mineração estocados no Brasil em:
- 355 barragens de rejeitos
- Centenas de pilhas de estéril
- Áreas de disposição a seco
Esses materiais contêm minerais economicamente recuperáveis que não eram viáveis com tecnologias antigas, mas tornaram-se aproveitáveis com avanços recentes.
PROJETOS DE REPROCESSAMENTO
1. VALE - Programa "Mina Zero Desperdício"
A Vale investirá R$ 8 bilhões até 2030 em projetos de reaproveitamento:
- PROJETO CAPÃO XAVIER (MG): Reprocessamento de 280 milhões de toneladas de rejeitos armazenados em barragem. Recuperação de 80 milhões de toneladas de minério de ferro. Investimento de R$ 2,1 bilhões. Descaracterização de barragem a montante. Início de operação: 2026.
- VARGEM GRANDE (MG): Reaproveitamento de 170 milhões de toneladas. Vida útil de 12 anos, produzindo 14 milhões t/ano. Redução de 40% no consumo de água vs. lavra convencional. Investimento: R$ 1,8 bilhão.
- TIMBOPEBA (MG): Maior projeto de reprocessamento do mundo. Volume total: 650 milhões de toneladas. Produção estimada: 22 milhões t/ano por 20 anos. Além de minério, recuperará areia para construção civil. Investimento: R$ 3,5 bilhões.
2. CSN MINERAÇÃO - Projeto Casa de Pedra
Reprocessamento de 120 milhões de toneladas de rejeitos em pilha seca:
- Recuperação de minério com teor de 50-55% Fe
- Produção adicional de 6 milhões t/ano
- Tecnologia de classificação a seco (sem uso de água)
- Liberação de área para expansão futura da mina
- Investimento: R$ 650 milhões
3. MINAS-RIO (Anglo American) - Projeto Serra do Sapo
Reprocessamento de rejeitos da barragem:
- Volume: 85 milhões de toneladas
- Recuperação de minério e areia industrial
- Descaracterização parcial da barragem
- Sistema de filtragem para disposição a seco
- Investimento: R$ 420 milhões
4. NEXA RESOURCES - Recuperação de Metálicos
Reprocessamento de pilhas de escória e rejeitos de zinco e chumbo:
- Três Marias (MG): Recuperação de zinco residual de 2 milhões t de material
- Tecnologia de lixiviação seletiva desenvolvida com UFRJ
- Produção adicional de 15 mil t/ano de zinco por 8 anos
- Investimento: R$ 180 milhões
TECNOLOGIAS APLICADAS
1. SEPARAÇÃO MAGNÉTICA DE ALTA INTENSIDADE
Permite recuperar magnetita e hematita de rejeitos com teores antes inviáveis (>18% Fe). Eficiência de recuperação: 65-75%.
2. FLOTAÇÃO REVERSA
Técnica que remove sílica de rejeitos, concentrando ferro. Desenvolvida por pesquisadores brasileiros, aumenta teor de 35% para 60-62% Fe.
3. PROCESSAMENTO A SECO
Eliminação de uso de água através de:
- Separação pneumática
- Classificação por densidade
- Peneiramento de alta frequência
Redução de 90% no consumo de água vs. beneficiamento úmido.
4. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Sistemas de IA analisam características de cada fração de rejeito, identificando rotas ótimas de processamento e maximizando recuperação.
5. BIOPROCESSAMENTO
Microorganismos lixiviam metais de rejeitos com baixo teor. Aplicações em cobre, ouro, níquel. Redução de 80% no uso de reagentes químicos.
BENEFÍCIOS MÚLTIPLOS
AMBIENTAIS:
- Redução de volume em barragens (descaracterização)
- Menor risco de ruptura
- Diminuição de nova supressão vegetal
- Recuperação de áreas degradadas
- Redução de 40-60% na geração de novos rejeitos
ECONÔMICOS:
- Aproveitamento de infraestrutura existente
- Custos de extração 30-40% menores (material já fragmentado)
- Prolongamento da vida útil de minas
- Geração de receitas de coprodutos (areia, argila, agregados)
- Redução de gastos com monitoramento de barragens
SOCIAIS:
- Manutenção de empregos em minas maduras
- Redução de riscos para comunidades próximas a barragens
- Maior aceitação social da mineração
DESAFIOS
1. VIABILIDADE ECONÔMICA: Reprocessamento só é viável se preço do mineral compensa custos. Preços baixos inviabilizam projetos.
2. COMPLEXIDADE TÉCNICA: Rejeitos possuem granulometria fina e mineralogia complexa, dificultando separação. Cada depósito requer processo customizado.
3. LICENCIAMENTO: Apesar de ambientalmente benéfico, reprocessamento ainda requer licenças, e processo pode ser demorado.
4. LOGÍSTICA: Alguns depósitos estão em áreas de difícil acesso ou distantes de infraestrutura de transporte.
5. QUALIDADE VARIÁVEL: Rejeitos não são homogêneos, gerando variações no produto final que podem dificultar comercialização.
MARCO REGULATÓRIO
O governo está desenvolvendo regulamentação específica para reprocessamento:
- Simplificação de licenciamento para projetos de reaproveitamento
- Redução de alíquota de CFEM para minério recuperado de rejeitos (de 3,5% para 2%)
- Linhas de crédito especiais do BNDES
- Incentivo fiscal: depreciação acelerada de equipamentos
INOVAÇÃO E PARCERIAS
Centros de pesquisa desenvolvendo soluções:
- CETEM (Centro de Tecnologia Mineral/MCTI): R$ 45 milhões em projetos de reprocessamento de rejeitos
- UFMG e UFOP: Laboratórios de caracterização e processamento mineral
- Vale Instituto de Tecnologia: P&D em processos inovadores
- SENAI CETEC: Capacitação de mão de obra especializada
Startups brasileiras desenvolvendo tecnologias:
- Recicla Mineração: Plataforma digital de mercado de rejeitos
- SeparaTech: Equipamentos compactos de separação para pequenos produtores
- BioLix: Soluções de biolixiviação para metais preciosos
META SETOR 2030
O IBRAM estabeleceu metas ambiciosas para o setor:
- Reprocessar 500 milhões de toneladas de rejeitos até 2030
- Descaracterizar 50 barragens através de reaproveitamento
- Reduzir geração de novos rejeitos em 30%
- Atingir taxa de recuperação mineral de 90% (vs. 75% atual)
A economia circular na mineração não é apenas tendência ambiental, mas imperativo econômico e social. Empresas que dominarem essas tecnologias terão vantagem competitiva significativa no futuro.