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Potássio: Brasil avança na redução de dependência externa

Projetos de mineração de potássio em Sergipe e Amazonas podem reduzir importações brasileiras de 95% para 60% até 2030, fortalecendo segurança alimentar e economia agrícola nacional.

Potássio: Brasil avança na redução de dependência externa

O Brasil, maior consumidor de fertilizantes da América Latina, está dando passos importantes para reduzir dependência de importações de potássio, nutriente essencial para agricultura. Novos projetos de mineração podem transformar o país de importador maciço em produtor significativo nos próximos anos.

IMPORTÂNCIA DO POTÁSSIO

O potássio (K) é um dos três macronutrientes essenciais para plantas (N-P-K):

- Regula abertura/fechamento de estômatos (controle hídrico)

- Ativa enzimas importantes para fotossíntese

- Melhora qualidade de frutos e grãos

- Aumenta resistência a pragas e doenças

- Fundamental para soja, milho, café, cana, citros

CONSUMO BRASILEIRO

Brasil consumiu 9,8 milhões de toneladas de KCl (cloreto de potássio) em 2024:

- Soja: 3,2 milhões t (33%)

- Milho: 1,9 milhões t (19%)

- Cana-de-açúcar: 1,5 milhão t (15%)

- Café: 0,8 milhão t (8%)

- Citros: 0,6 milhão t (6%)

- Outras culturas: 1,8 milhão t (19%)

DEPENDÊNCIA EXTERNA

Produção nacional atual: 470 mil toneladas/ano (5%)

Importações: 9,3 milhões de toneladas/ano (95%)

Origem das importações 2024:

1. Canadá - 4,2 milhões t (45%)

2. Rússia - 2,8 milhões t (30%)

3. Bielorrússia - 1,6 milhão t (17%)

4. Alemanha - 0,7 milhão t (8%)

Gasto com importações: US$ 4,2 bilhões em 2024

VULNERABILIDADE GEOPOLÍTICA

Conflito Rússia-Ucrânia evidenciou riscos:

- Preço do KCl disparou 150% em 2022 (pico de US$ 750/t)

- Sanções à Rússia/Bielorrússia criaram incerteza

- Canadá priorizou mercados asiáticos

- Logística marítima congestionada aumentou fretes

- Agricultores brasileiros enfrentaram desabastecimento

Em 2024, preços normalizaram (US$ 280-320/t), mas vulnerabilidade persiste.

PROJETOS BRASILEIROS

1. AUTAZES (Amazonas) - POTÁSSIO DO BRASIL

Maior projeto de potássio da América Latina:

- Investimento: US$ 1,3 bilhão

- Reservas: 1,06 bilhão de toneladas de minério

- Capacidade projetada: 2,4 milhões t/ano de KCl

- Início operação: 2027

- Vida útil: 40+ anos

- Método: Mineração subterrânea (dissolução)

Características:

- Camada de silvinita a 600-800m de profundidade

- Teor de 24% K₂O (padrão internacional)

- Processamento via flotação

- Rejeito salino será redissolvido e reinjetado

- Energia de termelétrica a gás natural (disponível na região)

- Transporte fluvial pelo Rio Amazonas até Itacoatiara (AM)

Desafios:

- Localização remota (180 km de Manaus)

- Infraestrutura limitada

- Licenciamento ambiental rigoroso (Amazônia)

- Necessidade de construir vila para 1.200 trabalhadores

Status: Licença prévia obtida em 2024, aguarda licença de instalação

2. CARNALITA (Sergipe) - BRASIL POTÁSSIO

Segundo maior projeto:

- Investimento: US$ 850 milhões

- Reservas: 620 milhões de toneladas

- Capacidade: 1,2 milhão t/ano de KCl

- Início previsto: 2028

- Subproduto: 500 mil t/ano de MgCl (cloreto de magnésio)

Vantagens:

- Proximidade de porto (Sergipe)

- Infraestrutura rodoviária e energética existente

- Região Nordeste é grande consumidora de fertilizantes

- Custo logístico 40% menor vs. Autazes

Tecnologia inovadora:

- Dissolução seletiva de carnalita

- Separação de KCl e MgCl por cristalização fracionada

- Aproveitamento integral do minério (zero rejeito)

- Água de produção tratada e reutilizada

3. FAZENDA JAMBREIRO (Minas Gerais) - VERDE AGRITECH

Potássio alternativo (K-Feldspar):

- Não é KCl, mas rocha silicática rica em potássio

- Libera K gradualmente (tecnologia de liberação lenta)

- Aplicação direta sem processamento químico

- Capacidade: 2,5 milhões t/ano de rocha

- Equivalente a 600 mil t/ano de K₂O

- Investimento: US$ 240 milhões

- Operação iniciada em 2023, em expansão

Vantagens:

- Custo 30% menor vs. KCl importado

- Libera também silício, cálcio, magnésio (benéficos)

- Reduz acidificação do solo

- Carbono negativo (captura CO₂ durante intemperismo)

- Ideal para agricultura orgânica

Limitações:

- Resposta mais lenta vs. KCl solúvel

- Requer maior dosagem (5-7x em peso)

- Não adequado para todas as culturas/solos

- Aceitação do mercado ainda em construção

4. OUTROS PROJETOS EXPLORATÓRIOS

- Silvinorte (Amazonas): Reserva de 480 milhões t, fase de viabilidade

- Rio Colorado (Sergipe): Projeto menor, 300 mil t/ano

- Arari (Maranhão): Exploração inicial, potencial de 800 milhões t

IMPACTO ESPERADO

Se todos os projetos principais entrarem em operação:

Produção nacional em 2030: 4,5 milhões t/ano

Consumo projetado 2030: 11,5 milhões t/ano

Autossuficiência: 39% (vs. 5% atual)

Importações reduzidas: 7 milhões t/ano (60% do consumo)

Economia de divisas: US$ 2,5 bilhões/ano

DESAFIOS

1. VIABILIDADE ECONÔMICA

- Custo de produção brasileiro estimado em US$ 220-280/t

- Competitivo apenas se preço internacional >US$ 300/t

- Margens apertadas limitam rentabilidade

2. COMPLEXIDADE OPERACIONAL

- Mineração de sais é técnica complexa

- Risco de infiltração de água (dissolução descontrolada)

- Necessidade de expertise internacional

- Poucas empresas brasileiras com experiência

3. FINANCIAMENTO

- Projetos de grande porte (US$ 800 milhões+)

- Payback longo (12-15 anos)

- Risco geológico e de mercado

- BNDES principal fonte, mas recursos limitados

4. LOGÍSTICA

- Amazônia: transporte fluvial dependente de nível de rios

- Sergipe: infraestrutura portuária saturada

- Necessidade de investimentos complementares

5. AMBIENTAL/SOCIAL

- Projetos na Amazônia enfrentam escrutínio

- Rejeito salino requer gestão cuidadosa

- Consultas a comunidades indígenas e tradicionais

- ONGs ambientalistas céticas

POLÍTICAS DE APOIO

Governo federal criou medidas:

- PLANO NACIONAL DE FERTILIZANTES (PNF 2050):

Meta: 45% de autossuficiência em NPK até 2050

Foco: estimular produção nacional

- REGIME ESPECIAL DE IMPORTAÇÃO:

Isenção de PIS/COFINS para equipamentos de mineração de fertilizantes

Redução de ICMS em alguns estados

- LINHA DE CRÉDITO ESPECÍFICA:

BNDES: até 80% do investimento

Taxa: TJLP + 1% a.a.

Prazo: até 20 anos

- P&D:

Embrapa: pesquisa em fertilizantes alternativos

CPRM: mapeamento geológico de áreas potenciais

CNPq/FINEP: R$ 200 milhões em editais

ALTERNATIVAS COMPLEMENTARES

1. RECICLAGEM: Potássio de cinzas de biomassa (bagaço cana, resíduos madeira)

2. IMPORTAÇÃO ANTECIPADA: Estoques estratégicos para 6 meses

3. DIVERSIFICAÇÃO DE FONTES: Acordos com novos fornecedores (Chile, Israel)

4. USO EFICIENTE: Tecnologias de aplicação localizada (redução de 15-20%)

5. ROTAÇÃO DE CULTURAS: Leguminosas fixam N, reduzem necessidade de adubação

CONCLUSÃO

A busca por autossuficiência em potássio é estratégica para:

- Segurança alimentar nacional

- Redução de vulnerabilidade geopolítica

- Economia de divisas

- Geração de empregos e desenvolvimento regional

Projetos em desenvolvimento podem mudar significativamente o cenário, mas sucesso dependerá de preços internacionais favoráveis, financiamento adequado, superação de desafios técnicos e aceitação socioambiental.